Aline Ribeiro de Barros
Carla Alexandra Passalha
Cristiane Maria de Lima Curtolo
Rosangela Silva Rezende
Conforme aborda
o historiador britânico Robin Blackburn, na sua obra “A construção do escravismo moderno no Novo Mundo”, o sistema
escravista que se desenvolveu nas colônias da América se configurou de maneira
inovadora, quando comparado às formas de escravidão anteriores, mesmo
apresentando alguns aspectos de uma configuração tradicional. Nesse sentido, o
autor busca analisar em sua obra a constituição dos sistemas europeus de
escravidão implantados nas colônias americanas, assim como também objetiva
melhor compreender a relação existente entre a escravidão e o advento da
modernidade.
Segundo
Blackburn, a escravidão moderna foi majoritariamente fomentada e regulamentada
pelos comerciantes de escravos e pelos colonos que faziam uso desse tipo de mão
de obra, se opondo à ideia equivocada de atribuir ao estado as
responsabilidades sobre tal comércio, ou seja, a sociedade civil colonial que
estabelecerá as regras e costumes no que tange a escravidão e ao estado será
atribuído o dever de dar legitimidade a tais regras e costumes, no sentido de
respaldar legalmente o que já se foi convencionados pela sociedade civil.
Na busca de
compreender a configuração do que intitula de escravismo moderno, Blackburn
destaca o fato de o sistema escravista europeu aplicado às Américas ter
adquirido um caráter intensamente comercial, o que fez com que o comércio
atlântico se transformasse na mola propulsora das trocas globais entre os
séculos XVI e XIX. Conforme enfatiza o autor, esse caráter extremamente
comercial que a escravidão no Novo Mundo passa a ter é um aspecto que a
diferencia da antiga: “Pode-se dizer que
muitos escravos romanos foram vendidos por terem sido capturados, enquanto
muitos escravos africanos que alimentaram o tráfico atlântico foram capturados
para serem vendidos.” (BLACKBURN, 2003, p. 23). Haja visto, o
desenvolvimento notável do sistema de plantations
no Novo Mundo, que de início baseou-se na mão de obra indígena, sendo esta
rapidamente substituída por milhares de africanos que passaram a sustentar o
sistema colonial desempenhando tanto funções braçais árduas quanto de
supervisão.
Nesses aspectos,
o autor considera que a escravidão nas Américas se deu de maneira bem menos
diversificada se comparada a escravidão no Velho Mundo, em se tratando do tipo
de atividade exercida e da sua composição étnica. No entanto, como o mesmo menciona
a escravidão americana não só apresenta características inéditas, assim como é
associada a vários processos que integram a modernidade, tais como:
(...) o crescimento da racionalidade instrumental, a formação do
sentimento nacional e do estado-nação, as percepções da identidade baseada na
raça, a disseminação das relações de mercado e do trabalho assalariado, o
desenvolvimento das burocracias administrativas e do sistema moderno de
impostos, a crescente sofisticação do comércio e das comunicações, o nascimento
das sociedades de consumidores, a publicação de jornais e o início da
publicidade impressa, a “ação à distância” e a sensibilidade individualista. (BLACKBURN,
2003, p. 16).
Para Blackburn,
o elo entre a modernidade e a escravidão enfatiza o lado obscuro do progresso,
já que a escravidão moderna se configurou como destrutiva e desumana, pois “a dinâmica espantosa da sociedade civil
também é impregnada de desastres e violência injustificada.” (BLACKBURN, 2003,
p. 19).
No que tange a
América espanhola, segundo o autor, o estado colonial teria um papel mais amplo
e controlador, o que veio a restringir o desenvolvimento da escravidão nas plantations, ao passo que no Brasil
português, o estado se mostrava menos regulador, permitindo um desenvolvimento
maior desse comércio. Este que seria ambicionado por outras nações europeias,
tais como França, Holanda e Inglaterra.
Nesses moldes, a
escravidão passa a constituir um rentável negócio, no entanto, mais que um
negócio, se configurava como uma instituição, um sistema destrutivo e opressor,
“mas que veio a exibir a rotina comum de
uma empresa” (BLACKBURN, 2003, p. 23), que se embasou na coerção e na
manutenção da ordem lançado mão de maus tratos frequentes que além de punições,
tinham também um caráter disciplinar e pedagógico.
O viés racial da
escravidão do Novo Mundo ganha espaço na medida em que comerciantes e colonos
passam a utilizar teorias raciais como explicação para a escravidão. Os cativos
não eram considerados membros do Estado, por isso adquiriam a nacionalidade de
seus proprietários. Dessa forma, para os europeus do início da era moderna,
aqueles eram considerados selvagens que precisavam ser domesticados e ter sua
identidade naturalizada, o que demonstra o intuito, ao menos em tese,
civilizatório nessas ações.
Com base nesses
pontos a serem trabalhados pelo autor, Blackburn afirma: “A conjunção de modernidade e escravidão é estranha e desafiadora, já
que o elemento mais atraente da modernidade sempre foi a promessa de maior
liberdade pessoal e auto-realização”. (BLACKBURN, 2003, p. 32). Assim, segundo análises do autor, ao mesmo
tempo em que a escravidão esta intimamente ligada a elementos da modernidade,
essa forma de exploração de mão-de-obra, ocorrida e aprimorada no Novo Mundo,
acaba por ocorrer concomitantemente às promessas de liberdade e igualdade em franca
ascensão no período. Desta forma, a escravidão se torna integrante da
modernidade, na medida em que será a força motriz da economia, que por sua vez,
trouxe o desenvolvimento e o ‘progresso’ para o Ocidente europeu.
Desta maneira,
pode-se concluir que a introdução do livro “A
construção do escravismo no Novo Mundo: 1492-1848” suscita a questão de que
a história da modernidade é construída com base em relações sociais desiguais,
assim como enfatiza Orlando Petterson na sua obra “Escravismo e Morte Social:
um estudo comparativo”:
A escravidão é uma das formas de relação de dominação mais extremas,
tocando os limites de poder total, do ponto de vista do senhor, e de impotência
total, do ponto de vista do escravo. No entanto, difere de outras formas extremas
de dominação em aspectos muito específicos. (PATTERSON, 2008, p. 19).
Nesse contexto
em que a escravidão se adentra a modernidade novas formas de representação e
expressão surgem no sentido de se apreender tal realidade. Nesse sentido, um
novo estilo artístico, o barroco, buscará criar e propagar “uma visão controlada e santificada da sociedade civil” (BLACKBURN,
2003, p. 36). No entanto, o barroco surge como uma expressão oriunda da alta
sociedade civil, sendo assim, tal estilo artístico acaba por ser aceito como
uma cultura oficial, ao passo que, o crioullo, um outro tipo de representação
da sociedade escravista, vem contrapor essa dita ‘cultura oficial’, e por ser
expressão de classes populares, acaba por criar o que a grosso modo, pode ser
chamado de cultura popular.
Segundo
Blackburn, o barroco procurou dar uma visão harmônica da sociedade escravista,
no entanto, aos poucos, elementos crioullos vão sendo a ele incorporados de tal
maneira que no ponto de vista do autor, a versão colonial do barroco antecipará
elementos do crioullo, que por sua vez, se afastará dos modelos europeus,
adquirindo em geral um caráter sincrético e popular.
Mediante tais
discussões, ao fim de seu capítulo introdutório, o autor enfatiza o fato de
milhares de escravos africanos terem sustentado o desenvolvimento europeu, não
só com o seu árduo suor, mas também com seu próprio sangue: “Mas era este o preço inevitável e
‘necessário’ do avanço econômico?” (BLACKBURN, 2003, p. 39). Nessa perspectiva, o autor afirma que, se foi
mesmo um preço necessário a ser pago, ao menos deveria parecer justo, no
entanto, os danos humanos causados pela escravidão são, até hoje, sentidos pela
sociedade.
Texto: BLACKBURN, Robin. Introdução: Escravismo e
modernidade. In.: A construção do escravismo
no Novo Mundo. Trad. Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro: Record, 2003.
p. 13-44.