Rafael de Castro
Allan FilipeCarlos
Eduardo Pupin
Wender de Paula
Elisson Rossi
É consenso que o samba, nos dias atuais, é um
dos maiores ícones da cultura nacional brasileira. No entanto, para tal
reconhecimento foram necessários anos e um longo processo de incorporação e
aceitação dos costumes e tradições negras à cultura brasileira. Não foi com o
fim da escravidão que imediatamente tais valores foram inseridos à esfera
pública do Brasil, mas sim com um duro e longo jogo de condenação e exaltação
desses.
Com a abolição da escravatura, as
relações que se criaram dentro da esfera privada entre negros e brancos se
manteve, mas não se expandiu à esfera pública. A incorporação do ex-escravo à
esfera pública levou tempo, guiada por ideias de um Darwinismo social, que a
aglutinação plena dos costumes africanos denegria a cultura nacional; mas, ao
mesmo tempo em que havia essa condenação, alguns elementos tradicionais negros
já se encontravam integrados a cultura popular negra. Um exemplo desta
dificuldade na aceitação do negro na esfera pública é notada no processo de
reurbanização do Rio de Janeiro. Essa
reforma acaba por criar duas cidades distintas: o Rio de Janeiro da nova norma
urbanística (centro), e o Rio de Janeiro das malocas (periferias). Desse modo,
muitas vezes esses dois Rio de Janeiro se confundiam; os negros andavam pelo
centro da cidade, reurbanizado, já que existiam locais que eram componentes da
cultura escrava, como por exemplo, as rodas de capoeira que aconteciam no
centro da cidade. Tal presença negra nas regiões centrais causava desconforto
em boa parte da população branca carioca.
Sendo assim, duas visões
conflitantes existiam sobre a cultura negra: uma que barbarizava e outra que
exaltava. Para ilustrar essa dicotomia, a capoeira, ao mesmo tempo em que era
proibida por lei, era exaltada como esporte nacional, fruto da mestiçagem
brasileira. Dessa maneira, a transformação do samba de música negra a música da
cultura nacional foi um processo de contato entre as esferas erudita e popular.
O próprio samba era proibido oficialmente. O presidente Hermes da Fonseca, por
exemplo, chegou a proibir qualquer banda marcial que tocasse melodias de samba;
o mesmo, no entanto, ao mesmo tempo levava a sua casa sambistas e frequentava
casas de samba. Algo que é importante ressaltar é que “samba” dizia muito mais
respeito a um acontecimento do que a um gênero musical, sendo que no evento do
“samba” eram executados maxixes, lunduns, entre outros ritmos. Outro exemplo é
dos policiais, que tinham que vigiar o acontecimento de sambas, mas ao mesmo
tempo eram de origem nas periferias, e cresceram no ambiente do samba.
Há também os “oito batutas”, um
grupo de sambistas que foram convidados a fazer uma turnê internacional na
França, para demonstrar ao público europeu o maxixe brasileiro. Ao passo que
para os estrangeiros aquela música representava uma característica interessante
da cultura brasileira, para os nativos do Brasil era demonstração de involução
do país, por serem oito negros tocando um ritmo de origem negra, e não
representava com verossimilidade o real desenvolvimento da sociedade
brasileira.
Assim, o processo que tornou o samba
símbolo nacional brasileiro não foi brando e rápido, mas sim conturbado, com
várias contradições e conflitos. Foi resultado de um longo e tempestuoso jogo
de concessões e críticas.