André Luiz Furtado
Cassiano Mendes
Lennon Cordeiro Silveira
Priscila Perroni
Renato Furtak
Stefani Silveira
Thiago Pedrosa
O estudo historiográfico de Elizabeth Kiddy em Quem é o rei do Congo? tenta explicar o surgimento, o desenvolvimento e a função dos reis do Congo no Brasil.
Os africanos escravos de modo geral desenvolveram uma prática de eleição de reis e rainhas, no caso do Brasil, os reis do Congo tinham um significado simbólico de conexão entre afro-brasileiros e as estruturas políticas africanas e aos seus antepassados africanos. Esta conexão fez criar uma identidade compartilhada entre as partes da comunidade negra, aprofundando os laços entre si, e seus passados. A prática da eleição de reis e rainhas fazia parte da criação de um ritual de memória, unicamente brasileiro, compartilhado entre as comunidades afro-brasileiras.
As funções dos reis africanos e afro-brasileiros, antepassados do rei do Congo, eram muito variadas. Resumindo, estes reis aparecem como líderes comunitários que supervisionavam o trabalho das associações de artesões negros, como chefes de revoluções, como líderes eleitos nas irmandades religiosas e como cabeças de rebeliões nos mocambos e quilombos.
Kiddy nos apresenta o problema da mistura de reis do Congo com reis negros, este segundo, que segundo a autora, é um termo mais geral para reis de quaisquer nações. Há estudiosos que denominam reis negros de reis do Congo, mesmo em situações em que não havia registro na documentação da existência do rei do Congo. Esse processo de simplificação que identificava todos os reis negros de reis do Congo julgar que este personagem foi uma forma de domínio social imposto de cima para baixo, e que esses reis não possuíam força alguma. Entretanto, a autora descreve a figura dos reis como parte de um processo de continuação da cultura centro-africana entre os afro-brasileiros. Reinados negros e reis do Congo gradativamente se afastam de distinções étnicas e vagarosamente vai se constituindo uma cultura afro-brasileira.
Voltando para os séculos XV e XVI, estudamos o papel desempenhado pelos reis na África e estes nos fazem entender a função dos reis nas colônias americanas. Os reis africanos tinham posições rituais importantes que mediavam vários níveis de relações sociais, religiosas e políticas; eles uniam as pessoas entre si e a tudo que existia. Nesta época o rei do Congo se tornou para os europeus, a alegoria máxima de convertimento africano ao cristianismo, entretanto, o rei do Congo entendia a religião cristã como extensão do seu próprio rito de poder. Essas divergências de entendimento causaram um mal entendido religioso, mas apesar disso a maior partes do centro-africanos se tornaram cristãos e participou das irmandades negras leigas.
As irmandades funcionavam como centros sociais e de ajuda recíproca, e eram os lugares ideais para recriar a comunidade africana no Brasil. As nomeações de reis com posição ritualística, política e militar serviam para reafirmar a identidade, o poder e a comunidade africanas. Os jesuítas auxiliaram a criação de irmandades do Rosário em todo o sertão brasileiro do século XVII, e já em meados do século XVIII, os reis já eram representantes oficiais nas irmandades religiosas leigas e nos quilombos. Mas o crescimento da população negra escrava, com a descoberta do ouro, fez nascer o sentimento de ameaça e medo de insurreições entre as autoridades, a partir daí cresce o número de tentativas de banimento das coroações das irmandades. Mas mesmo com as proibições, as irmandades continuaram a eleger reis e rainhas para conduzirem as organizações religiosas. Com isso podemos entender que a eleição de reis e rainhas já havia se tornado um “costume estabelecido” em todo o Brasil, como entende Kiddy.
No final do século XVIII os reis negros passam a ser chamados de Reis do Congo, denominação que começa a ser usada no sentido além do étnico, que é o de líder de uma comunidade de escravizados e pessoas libertas. Este rei possuía competências tanto políticas como habilidades rituais religiosas de seus ancestrais africanos. O rei do Congo é designado líder da descendência africana e recebe a lealdade dos várias nações africanas, ele era tido como o representante e governante destes povos.
O rei do Congo aparece primeiramente em 1760, nos registros de um casamento de uma princesa do Brasil, com seu tio Dom Pedro. A autora afirma que a população nesta época havia criado uma afeição pelos festejos africanos de coroação do rei do Congo, e que não se sentiam ameaçados pela festa. O título de rei do Congo aparece freqüentemente nos registros coloniais das irmandades do Rosário, e estes registros apontam diferenças entre os reis do Congo dos reis e rainhas negros eleitos todos os anos, pois o rei do Congo normalmente aparecia às escondidas das vistas das autoridades.
O rei do Congo, através de seu simbolismo, evidencia a procura por uma identidade coletiva afro-brasileira. Ele representava uma tática de preservação da ligação cultural entre o Brasil e a África Central, além de auxiliar na criação de uma nova cultura e identidade, a afro-brasileira.
KIDDY, Elizabeth W. Quem é o Rei do Congo? Um novo olhar sobre os reis africanos no Brasil. In: HEYWOOD, Linda M. Diáspora Negra no Brasil. São Paulo: Ed. Contexto, 2009, p. 165-192.