sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Reis do Congo no Brasil

André Luiz Furtado
Cassiano Mendes
Lennon Cordeiro Silveira
Priscila Perroni
Renato Furtak
Stefani Silveira
Thiago Pedrosa

O estudo historiográfico de Elizabeth Kiddy em Quem é o rei do Congo? tenta explicar o surgimento, o desenvolvimento e a função dos reis do Congo no Brasil.
Os africanos escravos de modo geral desenvolveram uma prática de eleição de reis e rainhas, no caso do Brasil, os reis do Congo tinham um significado simbólico de conexão entre afro-brasileiros e as estruturas políticas africanas e aos seus antepassados africanos. Esta conexão fez criar uma identidade compartilhada entre as partes da comunidade negra, aprofundando os laços entre si, e seus passados. A prática da eleição de reis e rainhas fazia parte da criação de um ritual de memória, unicamente brasileiro, compartilhado entre as comunidades afro-brasileiras.
As funções dos reis africanos e afro-brasileiros, antepassados do rei do Congo, eram muito variadas. Resumindo, estes reis aparecem como líderes comunitários que supervisionavam o trabalho das associações de artesões negros, como chefes de revoluções, como líderes eleitos nas irmandades religiosas e como cabeças de rebeliões nos mocambos e quilombos.
Kiddy nos apresenta o problema da mistura de reis do Congo com reis negros, este segundo, que segundo a autora, é um termo mais geral para reis de quaisquer nações. Há estudiosos que denominam reis negros de reis do Congo, mesmo em situações em que não havia registro na documentação da existência do rei do Congo. Esse processo de simplificação que identificava todos os reis negros de reis do Congo julgar que este personagem foi uma forma de domínio social imposto de cima para baixo, e que esses reis não possuíam força alguma. Entretanto, a autora descreve a figura dos reis como parte de um processo de continuação da cultura centro-africana entre os afro-brasileiros. Reinados negros e reis do Congo gradativamente se afastam de distinções étnicas e vagarosamente vai se constituindo uma cultura afro-brasileira.
Voltando para os séculos XV e XVI, estudamos o papel desempenhado pelos reis na África e estes nos fazem entender a função dos reis nas colônias americanas. Os reis africanos tinham posições rituais importantes que mediavam vários níveis de relações sociais, religiosas e políticas; eles uniam as pessoas entre si e a tudo que existia. Nesta época o rei do Congo se tornou para os europeus, a alegoria máxima de convertimento africano ao cristianismo, entretanto, o rei do Congo entendia a religião cristã como extensão do seu próprio rito de poder. Essas divergências de entendimento causaram um mal entendido religioso, mas apesar disso a maior partes do centro-africanos se tornaram cristãos e participou das irmandades negras leigas.
As irmandades funcionavam como centros sociais e de ajuda recíproca, e eram os lugares ideais para recriar a comunidade africana no Brasil. As nomeações de reis com posição ritualística, política e militar serviam para reafirmar a identidade, o poder e a comunidade africanas. Os jesuítas auxiliaram a criação de irmandades do Rosário em todo o sertão brasileiro do século XVII, e já em meados do século XVIII, os reis já eram representantes oficiais nas irmandades religiosas leigas e nos quilombos. Mas o crescimento da população negra escrava, com a descoberta do ouro, fez nascer o sentimento de ameaça e medo de insurreições entre as autoridades, a partir daí cresce o número de tentativas de banimento das coroações das irmandades. Mas mesmo com as proibições, as irmandades continuaram a eleger reis e rainhas para conduzirem as organizações religiosas. Com isso podemos entender que a eleição de reis e rainhas já havia se tornado um “costume estabelecido” em todo o Brasil, como entende Kiddy.
No final do século XVIII os reis negros passam a ser chamados de Reis do Congo, denominação que começa a ser usada no sentido além do étnico, que é o de líder de uma comunidade de escravizados e pessoas libertas. Este rei possuía competências tanto políticas como habilidades rituais religiosas de seus ancestrais africanos. O rei do Congo é designado líder da descendência africana e recebe a lealdade dos várias nações africanas, ele era tido como o representante e governante destes povos.
O rei do Congo aparece primeiramente em 1760, nos registros de um casamento de uma princesa do Brasil, com seu tio Dom Pedro. A autora afirma que a população nesta época havia criado uma afeição pelos festejos africanos de coroação do rei do Congo, e que não se sentiam ameaçados pela festa. O título de rei do Congo aparece freqüentemente nos registros coloniais das irmandades do Rosário, e estes registros apontam diferenças entre os reis do Congo dos reis e rainhas negros eleitos todos os anos, pois o rei do Congo normalmente aparecia às escondidas das vistas das autoridades.
O rei do Congo, através de seu simbolismo, evidencia a procura por uma identidade coletiva afro-brasileira. Ele representava uma tática de preservação da ligação cultural entre o Brasil e a África Central, além de auxiliar na criação de uma nova cultura e identidade, a afro-brasileira.

KIDDY, Elizabeth W. Quem é o Rei do Congo? Um novo olhar sobre os reis africanos no Brasil. In: HEYWOOD, Linda M. Diáspora Negra no Brasil. São Paulo: Ed. Contexto, 2009, p. 165-192.

Reis negros e reis do Congo no Brasil: estratégia contínua de preservar a ligação com a África

Angélica Alves
Mariana Pereira Garcia
Paula Fernandes Henrique

 Ao se estudar a história referente aos negros vindos da África para o Brasil, a partir do período colonial, dentre os pontos que nos chama a atenção, se tem à existência de comunidades afro-brasileiras, nas quais é perceptível nas manifestações culturais, elementos da tradição africana e europeia. Com isso, é possível ver a formação de uma cultura afro-brasileira que possui uma mescla de elementos e que vão servir como forma de identificação e também de resistência entre os africanos e seus descendentes aqui do Brasil.
               Nesse sentido, ao abordar a temática dos reis negros no Brasil, faz-se necessário retomar a existência dos mesmos na África e compreender o seu papel na sociedade, uma vez que no Brasil, os reis negros assumiram, geralmente, funções de liderança nas irmandades nas quais eles pertenciam. Na África, entretanto, eles ocupavam tanto funções políticas quanto econômicas.
Quando os portugueses chegaram ao continente africano, no decorrer do século XV, encontraram no Congo um reino já consolidado. No entanto, aconteceu um fenômeno interessante neste momento: nas regiões controladas por portugueses, principalmente no Congo, ocorreu a conversão africana ao Catolicismo europeu. Sobre este aspecto Elizabeth ressalta que havia um “mutuo mal- entendido”, já que o catolicismo cultuado na África era apenas uma reinterpretação do mesmo por parte dos adeptos africanos, sendo geralmente associado a uma nova proteção contra a feitiçaria, comum na região centro-africana. A autora ressalta que uns dos elementos que ligavam esses dois catolicismos era a dualidade entre o sagrado e o profano. Assim, ao longo do tempo, os africanos adotavam práticas cristãs para expressar suas crenças tradicionais, o que será possível ver com as Irmandades religiosas negras que passam a surgir no Brasil.
             Essas Irmandades leigas foram importantes espaços onde era possível ver inúmeras festas católicas, além de realizarem a caridade e trabalhar na sociabilidade dos africanos e afrosdescendentes em um país diferente daquele de origem, fazendo com que elementos da cultura africana se fizessem presente em terras americanas. Eram nessas Irmandades leigas, como por exemplo, a de Nossa Senhora do Rosário, uma das primeiras a ser fundada em terras brasileiras, mais precisamente no nordeste do país, que era possível ver a nomeação de reis e rainhas negras, dotados de poder ritualístico, militar e político. A coroação de reis e rainhas, na Irmandade do Rosário, por exemplo, contava com a celebração de uma missa no dia das coroações, além de também serem presentes, nestes rituais, muitas danças e cantos. Isso mostra bem a ligação entre elementos católicos e elementos da cultura africana.
  É importante lembrar que, no século XVIII, o número de Irmandades, no Brasil, cresceu junto com o número de escravos que aqui chegavam. Os principais destinos eram as capitanias de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e também no Rio de Janeiro. Esse crescimento do número de escravos, de Irmandades e, conseqüentemente, de fugas e formação de quilombos, levaram as autoridades a ver nessas Irmandades negras uma ameaça constante. Assim, tentaram banir a coroação, em alguns lugares, como por exemplo, em Salvador.  Como punição para os escravos que participassem dessas coroações estavam desde castigos corporais até isolamento total em relação aos outros negros.
                No entanto, mesmo com a proibição e as restrições feitas por Portugal no século XVIII, já que com o governo de Pombal a centralização do poder nas capitanias se faz presente, a coroação de reis e rainhas entre os negros apresentou-se como um costume recorrente em todo o Brasil. Os reis negros, termo usado para se referir a reis de nações, estavam presentes em festejos dinásticos, festas religiosas e comemorações de honra. Ainda é preciso ressaltar que no século XIX, os reis negros passaram a ser chamados reis do Congo, uma forma de referência ao papel que esses reis negros possuíam no Brasil.
Importante lembrar que essa denominação, no Brasil, advém da importância e fama que o rei do Congo possuía. Assim, quando se muda o nome de títulos étnicos para “Reis do Congo”, nota-se a emergência de uma identidade coletiva e da própria cultura afro-brasileira. Essa identidade compartilhada é a continuação da cultura centro- africana entre os afro-brasileiros, pois os reis do congo ligam os afro-brasileiros a estruturas políticas que remetem a África.
Assim, essas Irmandades que tinham como líderes reis e rainhas do Congo, serviram como uma forma de manter os laços com a África e a cultura advinda de lá. Elas tinham o papel de perpetuar alguns elementos da cultura africana que poderiam se perder ao longo do tempo. Percebe-se que esses reis e rainhas, continuam a ter sentido para a população que representam e se destacam pela formação de novas identidades.

KIDDY, Elizabeth W. Quem é o Rei do Congo? Um novo olhar sobre os reis africanos no Brasil. In: HEYWOOD, Linda M. Diáspora Negra no Brasil. São Paulo: Ed. Contexto, 2009, p. 165-192.

domingo, 9 de outubro de 2011

Das ruas aos terreiros: a formação da religiosidade afro-brasileira

Camila Comerlato
Ciro Chiarelli
Melissa Toledo Borges
Raphael Gomes de Almeida

Luis Nicolau Parés, especialista na área da história e antropologia das populações afro-brasileiras e da África Ocidental, com foco principal sobre suas religiões, etnicidades e antropologia visual, aborda em seu texto “Do Calundu ao Candomblé: o processo formativo da religião afro-brasileira”, os principais aspectos que rondavam os rituais afro a partir do século XVII, principalmente no que tange ao sincretismo religioso e sua importância na formação da sociabilidade religiosa afro-brasileira.
O autor reflete sobre a estrutura das religiões, utilizando como alicerce o pensamento sociológico de Ioan M. Lewis, diferenciando-as segundo a sua organização. De acordo com a análise, as religiões se dividem entre instituições centrais e instituições periféricas. As primeiras caracterizam-se como arcabouço de controle social e econômico da sociedade e as últimas agem na marginalidade da conjuntura vigente, sendo mais flexíveis e dinâmicas. Foi dentro do quadro referencial desta última que se situam no Brasil, entre os séculos XVII e XIX, os calundus, termo genérico para designar os aspectos ritualísticos das crenças africanas, desde festas religiosas aos místicos videntes e curandeiros.
A partir da migração forçada pela escravidão de indivíduos originais de determinadas regiões africanas, negros escravos encontraram nas expressões religiosas por eles trazidas, um espaço fecundo para sua própria sociabilidade, se agrupando por práticas e rituais comuns. Em um primeiro momento, quando o fluxo de escravos vindos para o Brasil era constante, a associação por grupos étnicos era mais comum e definiam o conceito de nação de acordo com a proveniência africana. Com o minguar do tráfego de escravos, as associações étnico-políticas, gradualmente perdem esse caráter e as nações se reestruturam com paradigmas teológicos, fundamentando a institucionalização do Candomblé. A partir desse momento, um indivíduo poderia fazer parte de várias nações ao mesmo tempo, dependendo apenas da ‘iniciação’ religiosa.
Dicotomicamente às religiões de revelação, as crenças africanas eram baseadas na ideia de “fortúnio-infortúnio”, definidoras do aspecto utilitário da fé, onde a religião procuraria sanar os problemas mundanos, provendo conforto e superação diante das mazelas da vida e conseguir a gratificação esperada com a devoção. Esse modelo pode ser aplicado à inteligibilidade do catolicismo popular, com seus santos e promessas, garantindo uma sincronia com as crenças africanas, o que facilitou a adesão do catolicismo por parte dos negros e possibilitou o sincretismo religioso presente na religiosidade afro-brasileira. Os negros participavam tanto do misticismo calundu quanto do misticismo católico, o que não parecia contraditório. Havia irmandades católicas de negros encorajadas pelas elites senhoriais que podiam ser legitimamente católicas, mas também podiam nutrir elementos de imbricamento com o legado pagão. Isso não exclui a existência de grupos que às utilizavam como fachada para ocultar a adoração de suas verdadeiras crenças. O cenário brumoso e inconstante da prática e sociabilidade religiosa fomentava constantes atritos com a religião-central, a igreja católica, que mantinha vigilância sobre as irmandades negras. O texto apresenta relatos de perseguição aos calundus que ocasionava freqüentes prisões, a igreja não distinguia as práticas que visavam malefícios das benignas, considerando todas “feitiçaria”.
As principais práticas dos calundus, evidenciando seu caráter de “fortúnio-infortúnio”, eram o curandeirismo e a vidência, executadas por místicos mais ou menos autônomos, com um secto limitado de seguidores e de práticas nômades. Gradualmente, com o estabelecimento da necessidade social de tais práticas, que aderiam inclusive adeptos brancos, os calundus avançaram em complexidade nas suas práticas sociais e passaram a erigir altares onde estabeleciam locais fixos para manutenção de seus ritos, o que não substituiu a existência de práticas individuais e congregações inferiores. A partir desses espaços ritualísticos deram-se no início do século XIX a consolidação de uma rede social extra-doméstica que de sua interação possibilitaram o surgimento de uma religiosidade afro-brasileira sólida, exemplificada pelas nações do Candomblé.
Conclui-se que o Candomblé, bem como outras práticas culturais de origem americana são fruto de um processo dialógico de reestruturação e ressignificação da herança africana e não africana, estabelecendo a gênese de elementos culturais nativos próprios do contexto onde surgem.

PARÉS, Luiz Nicolau. Do Calundu ao Candomblé: o processo formativo da religião afro-brasileira. In: A Formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. Campinas: Editora Unicamp, 2007, p. 101-123.

O processo formativo da religião Afro-Brasileira.

Flávio Rodrigues Andrade
Maiara Mano
Rebeca Oliveira de Lima

Inicialmente os rituais religiosos no Brasil eram vistos como grupos étnicos que em comemorações festivas se dividiam de acordo com suas especificidades culturais como: linguagem, cantos, os instrumentos e a forma de tocá-los. Esses grupos inicialmente são chamados de nações étnicas e posteriormente nação de candomblé, resultado das mudanças religiosas que diferenciaram o conceito de nação étnica do de nação de candomblé.
À medida que a religiosidade vai ganhando mais importância, à religião passa a substituir a origem territorial e também as relações de parentesco dos africanos. A iniciação ao terreiro de candomblé passa a determinar sua nação, agora de caráter religioso, ambas se resumem ao nome do santo o qual o terreiro cultua.
A população africana foi transladada para o Brasil, trazendo para o Brasil “fragmentos de cultura”.
A formação de instituições afro-brasileiras se efetivou com as estruturas sociais complexas, que acomodavam as múltiplas culturas africanas.
Houve na América a reconstrução do “complexo fortuna-infortúnio”, como uma forma de resistência cultural e como uma necessidade para enfrentar os infortúnios e tempos difíceis (como exemplo a própria escravidão).
Passa se a ter um sincretismo afro-católico do Candomblé que encontra suas raízes nas duplicidades de práticas que surgiram no século XVII e se desenvolveu mais no século XVIII, um termo bastante usado para designar tais práticas, que são desde “ritos supersticiosos e gentílicos”, “pretos feiticeiros” especialistas nas “artes diabólicas” e etc., era o “calundu”.
Os calundus designavam também grupos com práticas rituais coletivas, em vez de realizarem apenas o processo de curador-cliente.
Confeccionavam altares e sacrificavam bodes vivos, santos de barros, pintavam seus corpos, benziam alimentos acreditando que trariam sorte, fortuna, etc. As práticas de altares realizados as escondidas são realizados pelos antecessores do candomblé do século XIX. Os rituais de cura e feitiçaria tem por objetivo a obtenção de amuletos, mandingas, já o sistema de altar-oferenda são "complexos materiais sacralizados!, de propriedade familiar coletiva, habitat de divindades.
No século XVIII os jejes eram o grupo demograficamente mais importante da Costa Africana na Bahia. Em oposição aos cultos congo-angola é que se organizaram cultos domésticos nas casas e roças, muitos alugavam casas onde realizavam esses rituais, uma forma de cooperação entre os africanos. Alguns calundus não utilizavam o tabaque para manter a descrição e evitar sua prisão.
Os jejes desenvolve no Brasil a tradição dos altares, que são complexos materias dedicados à divindades, onde no final do século XVIII se volta em torno de uma única divindade.
Havia também o problema da institucionalização da religião afro-brasileira que se deu por meio do progressivo nível de complexidade social e ritual, segundo o autor.
Mesmo diante da institucionalização dos cultos de práticas individuais as coletivas, ainda persistiram as congregações de porte menos e a perpetuação dessas práticas individualizadas.
Já no séc XVIII, funcionavam congregações extradomésticas, sendo esporádico e pouco estável, segundo a documentação.
Bastide defende a idéia de mudança nos cultos ao longo da chegada de novos africanos, ele acredita que somente no século XIX consolida-se uma rede social de congregações extradomésticas através de uma cooperação, desenvolve uma "comunidade religiosa afro-brasileira" e o surgimento do Candomblé.
Para o autor as práticas de cura e adivinhação é mais provavél que seja originária da África Central. O processo de reinstitucionalização das práticas religiosas africanas no Brasil passou por um processo de reconfiguração, ressignificação de elementos africanos de diversas origens.
A organização de tipo eclesial, que deu lugar ao Candomblé tem-se pensado na possível influência de irmandades católicas e maçônicas. Havia entre a África e o Brasil condições e dinâmicas sociais semelhantes.

 PARÉS, Luis Nicolau. Do Calundu ao Candomblé: o processo formativo da religião afro-brasileira. In: _______. A formação do Candomblé. História e ritual da nação Jeje na Bahia. Campinas: Unicamp, 2007, p. 101-123.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Nascimento da Cultura Afro-americana: uma perspectiva antropológica

Bárbara Larissa Bento
Carolina Braga
Luiz Fernando Perez
Raquel Chaib

O texto apresentado em sala de aula no dia 06/10/2010 é composto pela introdução, primeiro e segundo capítulos do livro O Nascimento da Cultura Afro-americana: uma perspectiva antropológica. Publicado em 1973 pelos autores Sidney Mintz e Richard Price, a obra surge logo após a luta pelos direitos civis e o surgimento dos primeiros currículos de estudos afro-americanos nas universidades estadunidenses.
Como o próprio título releva, trata-se de uma perspectiva antropológica acerca da história da cultura afro-americana. Mintz e Price abordam a instalação inicial dos africanos na América e a sua interpenetração com as comunidades europeias para traçar a base das características que as comunidades afro-americanas viriam a adquirir.
            Durante o povoamento da América os autores ressaltam que nenhum grupo conseguiu transpor seus valores de maneira intacta por melhores que fossem as condições. Mesmo os europeus dispondo da liberdade e da norma para organizar seu meio social não tinham como garantir uma transmissão cultural satisfatória, porém o caráter dessas transposições e suas transformações posteriores os fazem crer numa maior continuidade no caso afro-americano.
            A primeira diferença se refere ao modo com que foi praticado o povoamento por africanos e europeus. Os europeus povoaram o novo mundo vindo de províncias de diversos Estados Nacionais que compartilham uma língua oficial comum, isso traduz numa composição homogênea da ocupação. Já os africanos foram retirados de diversas áreas que possuíam numerosos grupos étnicos e linguísticos somando-se os fatores coercitivos e industriais do escravismo sua ocupação se tornou heterogênea.
            Partindo de tal pressuposto os autores não acreditam que os africanos escravizados eram capazes de compartilhar uma cultura como faziam os europeus oriundos de uma determinada região.
O desenvolvimento das colônias europeias, abastecidas cada vez mais por mão de obra escravizada gerou a criação de sociedades divididas ponto de vista cultural, estético e institucional. Em geral eram pequenos grupos de europeus exercendo seu poder sobre uma grande maioria africana.
            Ao aprofundar as discussões entorno da origem e formação das comunidades afro-americanas no novo mundo, os autores apresentam um modelo antropológico que postula a existência de dois blocos culturais, um africano e outro europeu. Para pensar a cultura africana os acadêmicos são obrigados a postular a existência de uma herança cultural generalizada, ou afirmar que boa parte dos africanos de determinada colônia pertence ao mesmo grupo étnico ou tribal.
            A segunda hipótese do modelo antropológico é logo descartada, já segundo os autores, o conceito de herança cultural africana precisa ser aprimorado. Se definirmos cultura como um corpo de crenças socialmente padronizadas que servem de guias para um grupo, o termo não pode ser atribuído as massas de indivíduos escravizados distantes de seus meios políticos.
            Os autores concluem, portanto que a multidão heterogênea de indivíduos sob uma condição de status inferior e que compartilham traços subconscientes de uma origem comum pode ter servido de catalisador nos processos pelos quais eles foram capazes de forjar suas próprias instituições. Os africanos na América então só puderam se constituir como comunidade e partilhar uma cultura na medida e na velocidade que eles mesmos as criaram.
           
Texto: MINTZ, Sidney; PRICE, Richard. O Nascimento da Cultura Afro-americana: uma perspectiva antropológica. Rio de Janeiro: Pallas, 2003, p. 19-58. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Nascimento da Cultura Afroamericana

Daniel Rosa
Joice Prado
Luiz Fernando Sampaio

Oferecendo uma perspectiva antropológica acerca da instalação inicial dos africanos no Novo Mundo, os autores Sidney Mintz e Richard Price, acreditam que esse início carrega em si as “linhas de base” que caracterizariam as comunidades afro-americanas posteriormente.
No processo de colonização da América portuguesa, mostram que é desnecessário enfatizar que europeus e africanos tiveram participações muito diferentes. Entretanto, acreditam que no processo de transposição de suas culturas (levando em consideração que nenhuma pode se manter intacta ao transferir-se de um lugar a outro), os europeus podem se dizer mais homogêneos do que os africanos.
Ainda que afirmem ser a tese proposta de caráter provisório, e aqui sem dúvida nenhuma pisando em terreno delicado, acreditam que mesmo os europeus possuindo algumas diferenciações entre si devido às diferenças de localidades em que viviam anteriormente, possuíam mais condições de se assumirem enquanto comunidade do que os africanos, retirados como eram de diferentes partes do continente, que muitas vezes pouco ou nenhum contato tinham entre si.  
Partindo de uma postura crítica frente à Antropologia tradicional que durante muito tempo encarou a África como detentora de traços culturais únicos e homogêneos, os autores afirmam que dificilmente pode-se aplicar o termo “cultura” para caracterizar o período anterior à colonização. Nas próprias palavras dos autores, a única coisa que os escravos compartilharam no começo, inegavelmente, era sua escravidão.
Nesse sentindo concordamos com os mesmos, já que partindo de lugares muitas vezes extremamente diferentes entre si, os primeiros africanos podiam mais ser considerados uma multidão heterogênea do que uma comunidade que rapidamente desenvolveu algum sentindo igualitário apenas por pertencer ao mesmo continente. Se pensarmos nos processos históricos que regeram o período colonial e, mais que isso, regeram as ações humanas, não podemos simplificar nosso pensamento ao cair no lugar comum de acreditar que em um curto espaço de tempo duas ou mais pessoas começariam a se entender enquanto pertencentes a uma mesma cultura.
Nessa linha de pensamento, mostram que qualquer traço de cultura que venha posteriormente caracterizar-se enquanto única na comunidade africana, foi antes de tudo construída pelos mesmos.  Para que as comunidades ganhassem forma, nas palavras dos autores, padrões normativos de conduta tiveram de ser criados, e esses só poderiam ser criados mediante determinadas formas de interação social.
Assim, a criação de instituições que se mostravam necessárias à vida cotidiana foi a grande tarefa organizacional dos africanos escravizados, ainda que dentro das condições limitantes que a realidade lhes impunha. “Instituições”, aqui, ficam definidas pelos autores como qualquer interação social que passasse a ser recorrente: determinada forma de culto, um dado padrão para o estabelecimentos de amizades, formas de realizar casamento, entre outros.
Utilizando como exemplo a língua, os autores também buscam demonstrar a complexidade que envolve o termo “cultura”. Mostram que no início a variedade de línguas falada era imensa, sendo a única comunicação comum os “pidgins”, linguagem abreviada utilizada principalmente no comércio e que provavelmente foi a primeira forma de contato entre senhores e escravos. Posteriormente, essas contrações da língua começaram a ganhar contornos populares, servindo para a comunicação geral. Por fim, quando esse tipo de linguagem deixa de ser apenas um “pidgin” e começa a ser ensinada às crianças como língua natural aceita, ela passa a ser “crioula”.
Nesse sentido, mostram que não basta nos atermos ao estudo da estrutura, sintaxe e morfologia de uma língua crioula, mas também nos atermos a discussão de como essa língua é utilizada, por quem e em que circunstâncias sociais. Os conjuntos sociais e culturais, na concepção dos autores, devem caminhar juntos, posto que tratar a cultura apenas como um conjunto de traços similares é perder de vista a forma como as relações sociais são feitas através dela.
Para os autores, a maior contradição do sistema escravocrata – que permitiu a adaptação e posterior resistência por parte dos negros – está no fato de que os senhores tratavam seus escravos como bens e maltratavam-nos como animais, mesmo assim, exigiam que se comportassem como homens. Entretanto, sabendo esses senhores que um animal não aprenderia uma língua nova e nem elaboraria formas de resistências ativas ou veladas, ainda sim não os admitiam enquanto seres humanos.
Sendo essa a contradição fundamental do sistema, quando levada em conta, mostra que uma sociedade divida apenas em duas camadas se tornava impossível. Ainda que os senhores interiormente esperassem que com a postura e os castigos corretos os escravos terminariam por reconhecer sua condição de inferiores, o fato de saberem que lidavam com seres humanos, tanto quanto eles, inviabilizava o projeto de manter um sociedade baseada no status, transformando essa em uma idéia ilusória.
Como lembram os autores, as relações entre livres e cativos se deu de forma complexa, permeada pela consciência da dependência mútua. Os escravos não eram apenas mão-de-obra nas plantações de cana, mas também artesãos, carpinteiros, criadores de animais, etc, dentro e fora das casas grandes. Aos poucos, para além dos trabalhos que originavam rendimentos, os escravos adentraram as casas dos senhores para cuidarem dos bebês e fazer a comida. Assim, era clara a relação de “dar e tomar”, da qual ambos os lados tinham consciência. Os escravos sabiam que os senhores eram dependentes de sua força de trabalho, fosse ela qual for, mas também sabiam que aqueles possuíam meios eficazes de castigo e tortura, separação forçadas de famílias, dentre outros.
Essa consciência e o contato entre as duas camadas, entretanto, não diminuía o abismo social que as separava. Ameaça real, porém, começou a se fazer com o surgimento de uma camada intermediária, a dos crioulos, fruto das relações sexuais inevitáveis. O lugar social desses era incerto e ameaçava romper o sistema dual. Esse meio ligeiramente confuso começa a ganhar força quando os escravos passam a fazer parte efetiva da sociedade, como negociantes (posto que também possuíam seus próprios pequenos pedaços de terra, onde cultivavam sua subsistência), como músicos nos bailes e festas, camareiros, acompanhantes, damas de companhia, amas de leite e até mesmo educadores.
Assim, os autores mostram que é corrente pensarmos no poder e influência que as classes dominantes exerceram sobre as inferiores, mas que a via contrária também deve ser lembrada, já que os escravos afetavam e até controlavam partes importantes da vida dos senhores. Dessa forma, constroem um panorama profundamente dual e dividido pelo status, mas complicada principalmente pelo contato freqüente e profundo de ambos os lados.

Texto: MINTZ, Sidney; PRICE, Richard. O Nascimento da Cultura Afro-americana: uma perspectiva antropológica. Rio de Janeiro: Pallas, 2003, p. 19-58.  

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Cultura no Mundo Atlântico: entre a estabilidade e a mutabilidade

Andréa Manfredi da Costa
Isadora Remundini
Marina Casadore Bianchi
Pollyanna Souza Menegheti

John K.Thornton- historiador estadunidense dedicado aos estudos da chamada diáspora africana - inicia sua abordagem da cultura Afro-americana afirmando-a enquanto elemento de maior homogeneidade, frente ao conjunto das diversas culturas africanas, visto que aqui conviviam etnias que se encontravam apartadas no outro continente.
O trabalho é fundamentado no conceito de cultura e, essencialmente, no conceito de dinâmica cultural; o primeiro termo, entendido em sentido lato como o conjunto de elementos em uma dada sociedade, tal qual o parentesco, a arte, a linguagem, a formatação política, a religião ou a estética; o segundo, como as transformações às quais estão suscetíveis estes elementos e que se dão de duas formas: 1) Ocasionadas por modificações na dinâmica interna 2) Ocasionadas pela interação com outras culturas.
Lançadas as bases de sua análise, Thornton se vale da apreciação das vivências culturais no continente africano e na transposição desta cultura para o mundo atlântico, formando assim, uma compreensão balizada, simultaneamente, pela amplitude do modelo teórico, mas sustentada pela apreciação das relações específicas entre as culturas, em menor escala – o que pode ser notado no seguimento do texto em que avalia as interações culturais no âmbito da linguagem, da estrutura social e da estética.
No que concerne à questão da linguagem, o autor afirma que a mesma, a partir do contato com povos europeus, não só no novo mundo, mas no próprio território africano, sofreu modificações e variações, tendo que se adaptar de alguma forma para que houvesse o mínimo de comunicação entre povos africanos de diferentes nações, e dos mesmos com os europeus. Dentre todos os elementos culturais, a linguagem é o mais estável, mesmo assim, o conjunto de línguas africanas foi o mais frágil para sobreviver e se desenvolver no novo mundo. As línguas africanas desapareceram, sendo substituídas por uma língua crioula, ou por uma forma adaptada da língua européia. Isto pode ser explicado pela “arbitrariedade essencial das línguas”, ou seja, quando muitas línguas que não se assemelham em estrutura e vocabulário, o resultado provavelmente será o nascimento de uma língua franca, para que cada indivíduo precise aprender apenas uma segunda língua para se comunicar.
No que diz respeito às formas de preservação da língua o autor destaca o canto, já que os escravos, muitas das vezes, cantavam em suas próprias línguas. A música era uma forma de expressão de um nacionalismo que, de certa forma, provocava orgulho e não exigia esforço de aprendizado. Com isso, percebe-se que as línguas africanas sobrevivem até hoje no Caribe e no Brasil, por exemplo, no contexto da música e de cânticos religiosos.
Muitos antropólogos enfatizam a perda da cultura africana durante a travessia atlântica, bem como a desestruturação das organizações sociais por meio de parentesco. Thornton acredita que conferir muita atenção à questão dos laços de consangüinidade nas relações sociais é ser limitado. Segundo o autor, havia, na África, muitas formas de organização pessoal sem referência a parentescos ou laços consangüíneos, sendo que o exército pode ser considerado o maior exemplo disto, visto que estes eram organizados como unidades corporativas, não se restringindo a laços familiares. Além de organizações de cunho político, as organizações religiosas também não tinham limites impostos pela questão do parentesco. Sendo assim, quando os africanos desembarcam no outro continente, como escravos, as organizações baseadas nesses modelos africanos deram manutenção a essas estruturas sociais, que conseguiram, assim como a linguagem, sobreviver fora do continente africano, mesmo que de forma modificada.
De todos os elementos da cultura, a estética apresenta-se como o mais instável. Porém, no mundo atlântico os elementos culturais africanos foram os que mais resistiram, como, por exemplo, a música e a dança africana que exerceram importante influência na musicalidade afro-americana. No processo de transferência e de transformação de estéticas africanas na América, é importante considerar as condições de trabalho dos escravos, já que nem todos eram qualificados para realizar trabalhos mais complexos e também havia algumas matérias-primas que não estavam disponíveis.
No mundo atlântico o contato de diversas culturas possibilitou misturas de estéticas. A estética não é rígida como a linguagem e pode incorporar novos elementos sem prejuízos. Geralmente as pessoas são bastante flexíveis em adotar elementos estéticos diferentes. Esse contato gera um processo de troca, mesclando tradições estéticas entre africanos e europeus.   
Thornton acredita, portanto, que no mundo atlântico a cultura africana não apenas sobreviveu intacta em alguns traços, mas permaneceu, justamente devido à sua flexibilidade e capacidade de adaptação, sendo capaz de influenciar também a cultura atlântica. Sendo assim, conclui-se que o cerne da questão proposta pelo autor é a natureza da interação cultural e a transformação dos elementos africanos para se adaptarem às novas condições impostas pelo mundo atlântico.

THORNTON, John. As transformações da cultura africana no mundo atlântico. In: _______. A África e os Africanos na formação do mundo Atlântico (1400-1800). Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 279-311.