segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nascimento das Culturas Afro-americanas


Abner Neemias Cruz
Diego de Freitas Úngari
Kátia Lima de Oliveira
Luis Gustavo Terra Telles
Michel Willians Araujo Yamamoto

Por muitas vezes, costumamos acreditar que grande parte de nossa cultura constituiu-se sob a influência do colonizador branco europeu. Tal percepção deve-se, pois, acreditarmos que os aspectos culturais fundamentais de nossa nação, como nossa língua, nossas tradições e nossos valores, constituídos predominantemente sobre a influência do catolicismo romano, não tiveram qualquer interpenetração relevante de aspectos culturais advindos dos indígenas e dos negros.
Com isso, acabamos por acreditar que alguns traços culturais, em muitos casos, associados ao campo do exótico e das curiosidades, vieram apenas das heranças deixadas por índios e, aqui merecendo maior destaque, pelos escravos, além de ficarem restritos aos substratos sociais mais baixos e tidos por "menos cultos". Na verdade isto não se efetivava, pois acabou havendo uma hibridização com a criação de uma cultura crioula desse modo, o samba, o funk e o próprio rock n’ roll, no caso da música; o candomblé e a umbanda, no campo religioso; o vatapá, o acarajé e outros tantos quitutes, acabaram por constituir uma cultura afro-americana no Novo Mundo.
Contudo, o colonizador europeu tenha conseguido criar nas suas colônias americanas sistemas legais, econômicos e instituições religiosas a seus moldes, estes não foram constituídos de forma integral, pois nenhum grupo é capaz de transferir de um lugar para o outro, de maneira intacta, seu estilo de vida, seus valores e suas crenças, pois as próprias características do lugar que recepciona essa cultura alienígena, restringe a intensidade pela qual esta é absorvida.
Soma-se, ainda, que com o povoamento, o crescimento e a consolidação das colônias americanas, onde a cada dia aportavam mais e mais escravos num fluxo ininterrupto por mais de três séculos, resultaram na criação de sociedades profundamente divididas tanto culturalmente como fisicamente. Apesar dos maus tratos e outros elementos coercitivos utilizados pelos senhores para submeter os cativos, estes não podiam ser utilizados a esmo, visto que os escravos possuíam consciência da dependência dos senhores em relação a eles. Castigos físicos e separação de familiares podiam engendrar inúmeras reações, que variavam desde a doença fingida à fuga, o que afetaria diretamente os lucros.
Seria um erro, então, supor que nunca houvera choques culturais entre o elemento branco e o negro e que estes formaram juntos uma cultura crioula nas Américas, embora estes contatos não estivessem nos planos dos senhores, pois tais contatos poderiam colocar em xeque a estabilidade do sistema escravagista.
Ao chegarem a América, negros, vindos de várias regiões da África, só tinham contatos com outros escravos, em mesma condição que ele nas senzalas dos senhores ou em espaços comuns frequentados por eles, muitas vezes, com línguas e culturas diferentes da sua. Outra interação possível ao cativo estava com seu próprio senhor. Com isso, os escravos tiveram que constituir novas comunidades de sentido, com normas e língua própria, que lhes proporcionassem se comunicar e se relacionar, dando origem a uma nova cultura híbrida.
Do contato com o homem branco, diverso elementos culturais surgiram, advindos tanto pela delegação de obrigações no trabalho nas fazendas de açúcar e café; quanto pelas relações domésticas com os escravos da casa-grande; do inevitável contato sexual entre libertos e cativos; e até mesmo pelas relações surgidas pelos contatos comerciais ou em ocasiões festivas.
É de se convir que nas sociedades americanas, composta por uma minoria de europeus que controlavam uma grande maioria de africanos, que as normas que regulavam o contato entre esses dois grupos tenham sido os primeiros a serem criados e normatizados.

Escravidão: uma perspectiva antropológica


                     João Paulo Bettini Bonadio
Sérgio Daidone Filho
Eduardo Lobo Lopes


   Pretendemos neste texto, de maneira simples, acessível e direta, falar da instalação inicial dos africanos em contraste com a dos europeus no Novo Mundo analisando o contato dessas culturas. Nossa intenção é valorizar a maneira dinâmica e abrangente como ocorreu tal encontro. Assim, evitamos a simplicidade da ideia de que as duas culturas estiveram sempre separadas como, comumente, nos é mostrado.
   Primeiramente notamos que o povoamento dos colonos europeus e africanos se deu de maneira distinta: enquanto os europeus compartilhavam uma cultura, por assim dizer e apesar das diferenças e dos regionalismos, os africanos foram retirados de variadas partes do continente, de numerosos grupos linguísticos e étnicos e diferentes sociedades. Admitindo que nenhuma cultura consegue transpor um espaço ou um tempo sem se modificar notamos que no Novo Mundo não chegou uma cultura africana homogênea, mas sim uma multidão de africanos que apenas compartilhavam alguma forma elementar de comportamento, um conjunto de valores, algum tipo de percepção de mundo e dialetos variados, mas com uma origem comum que lhes tornava entendíveis uns aos outros. O que eles compartilhavam, de fato, era sua escravidão e, a princípio, só surgiu uma comunidade africana na medida em que essa comunidade foi se criando e sendo criada nos processos de mudança cultural, desenvolvendo suas instituições dentro das condições limitantes que a escravidão lhe impunha.
  O monopólio policial e militar pertencia aos europeus, mas isso, apesar de dar alguma configuração ao desenvolvimento da cultura africana nas colônias, assim como outros fatores que serão comentados a seguir, não o impediu de ocorrer. A diferença cultural também se mostra, nesse caso, um reforço nas diferenças de poder, aumentando o abismo entre o escravo e o senhor (já que qualquer tipo de cruzamento de fronteiras podia desgastar os princípios coercitivos em que se baseava toda a empreitada colonial), mas isso também não evitava que a cultura europeia pudesse manter-se intacta. O senhor era um dependente e não podia, apesar de seu poder, agir deliberadamente, pois ele tinha necessidades de atingir certos resultados produtivos e ainda lidava com pessoas que reagiriam as suas ações, o ideal institucional, dos senhores europeus, de que dois grupos, num mesmo espaço, pudessem se desenvolver livres de contato e trocas culturais se mostra uma utopia. Os escravos eram legalmente definidos como bens, isso racionalizava o sistema, mesmo, sendo eles humanos mas na prática os senhores percebiam esse fato, embora não pudessem admiti-lo. Os escravos não eram somente a mão-de-obra pesada dos canaviais, mas os cozinheiros, artesãos, cocheiros, mecânicos, carpinteiros e até atuavam como educadores; a economia das fazendas era célebre por essa dependência e variedade de escravos, assim como pela indolência da classe senhorial; essas tarefas que exigiam um alto grau de contato e uma interação social frequente, além dos casos de contato sexual, principalmente de mulheres brancas com escravos gerando filhos mestiços, num exemplo bastante claro, mostravam o quão próximo as duas culturas estavam realmente e ofereciam situações constantes de um contato e de uma socialização não previstos na normas ideais da instituição escravocrata.
   Essa foi a contradição central da escravidão no Novo Mundo que se mostrava em cada encontro entre os escravizados e os livres que formavam essa nova cultura, que ia se modelando e construindo, a cultura americana.                 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

As Transformações da Cultura Africana no Mundo Atlântico


Carolina Defensor
Monique Mendes
Silvia Rubini

As culturas, em geral, estão em constante processo de transformação. Isso se dá tanto na esfera interna, um movimento interno de realocação, por exemplo, diante de uma nova estrutura, quanto na esfera externa, principalmente no contato com outra cultura. Nesse sentido, a cultura africana, em contato com culturas exógenas, esteve exposta a uma série de transformações. Primeiramente, o comércio africano de escravos, situado na costa oeste africana, no Atlântico, gerou um encontro entre africanos de povos diversos com europeus cristãos. Essa disposição cultural admite uma interação, mesmo meramente comercial, entre as culturas envolvidas e uma tendência de elaborar sempre um meio de tornar claro ao outro, pensando em termos comerciais, seus interesses e objetivos. Como diversas etnias se sociabilizavam, era comum o desenvolvimento de uma língua franca, ou seja, de uma língua que atendesse a intenção de contato e relação comercial. Em geral, essa língua era originária dos povos europeus, porém, sofria adaptações gramaticais – utilização do verbo no infinitivo, por exemplo – que melhor fizessem sentido para a etnia africana contraposta. Os vocábulos eram instituídos, mas o modo de passar a informação era mais maleável. O que importava era a inteligibilidade da informação, era estabelecer com o outro uma comunicação mínima e simples.
E na América? Como se dá a interação cultural entre africanos e euro-americanos? Outras circunstâncias envolvem este encontro. Pensemos que não é necessário negociar, pois aqueles que são levados à América já estão condicionados à escravidão. Um elemento importante na transformação da cultura africana no atlântico americano é a estrutura político-social já estabelecida, que, consequentemente, gerou uma reorganização interna dos grupos escravos. Outro aspecto que precisamos considerar é o universo relacional muito amplo, ou seja, a interação cultural dada na América admite tanto etnias europeias, quanto etnias africanas. Muitas vezes o encontro entre diferentes culturas africanas não se dava de forma tão intensa na África quanto se deu no continente americano.
Apesar de pontuadas algumas características que configuram o encontro do africano com o outro americano, não podemos esquecer que as manifestações culturais africanas na América se davam em condições bem distintas daquelas disponíveis no continente africano. Os instrumentos musicais, por exemplo, tiveram que ser adaptados. Não se importavam escravos e objetos artísticos. A mão-de-obra escrava comercializada era selecionada com base nas capacidades excepcionais dos africanos escravizados. Assim, muitos artistas nem chegaram a sair do continente pátrio devido às suas habilidades. Portanto, as manifestações culturais, principalmente voltadas à música, adaptavam-se a novos materiais, a novas diferenças sonoras...
Isso se dá também com as manifestações plásticas. Cerâmicas, ornamentos, todos os aspectos que envolvem esteticamente uma etnia foram transformados pela adesão de novos métodos de manuseio e de novos materiais não disponíveis na África. Esse aspecto cultural, de manifestar musicalmente ritmos africanos em materiais americanos, atrai do outro um interesse apreciador. Porque, diferentemente da língua, que exige um acordo entre as partes para, assim, gerar um mecanismo fixo para agilizar e efetivar o entendimento, os elementos estéticos não exigiam um acordo para serem apreciados. Em outras palavras, era possível simplesmente apreciar a música africana, a dança africana...
Mas o que seria cultura afro-americana? Somadas as distinções das etnias africanas na América, aparentemente, podemos pensar num possível afastamento interativo entre elas. No entanto, a interação entre etnias distintas se deu arbitrariamente, limitadas pela escravidão. Daí nasce a necessidade de construção de uma cultura compartilhada. A cultura afro-americana nasce para resistir às normas sociais euro-americanas. A ela – à cultura afro-americana – coube um avanço compartilhado, tornando-a, portanto, muito mais homogênea na América do que nos embates étnicos na África.

Referência:

THORTON, John. “As transformações da cultura africana no mundo atlântico”. In: A África e os Africanos na formação do mundo Atlântico (1400-1800). Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

Sem Título II


João Jorge de Martini Moraes
Débora Garrido Lima
Marcos Stamillo C. Lopes

A análise a seguir trata-se do texto “As transformações da cultura africana no mundo atlântico”, do livro “A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico – 1400 – 1800” de autoria de John Thornton. A principal idéia do texto é tratar a respeito das transformações das culturas africanas na transposição de escravos para as Américas. Primeiramente, o autor define o que é cultura em uma explicação sintética, onde esta seria um modo de viver de uma sociedade. Esse modo de vida seria composto de vários elementos desta sociedade, como: parentescos (estruturas familiares), arte, linguagem, religião, formações políticas. Ainda a respeito desses elementos, o autor propõe que não são estáticos, ou seja, são vítimas de determinadas transformações.
As mudanças as quais estão suscetíveis esses elementos se dão de duas formas: modificações internas (em razão de forças políticas, mudanças ambientais, crescimento populacional, modismos, questionamentos intelectuais, etc.), e modificações externas, ou interações com novas culturas (através do comércio, da política ou de alianças). Nesse sentido o autor aponta, tratando do caso específico da cultura africana no Novo Mundo, que essas mudanças tiveram três principais influências: em primeiro lugar, o ambiente na América que era tão diferente da vida social, ecológica e política na África, o que acabou alterando a cultura africana de certa maneira; segundo que os africanos na América tinham um contato com um maior número de indivíduos de outras tribos (ou nações) africanas; e por fim devido à interação com a cultura europeia.
Tratando da questão das mudanças nos traços que compõe a cultura, o autor releva que alguns sofrem menos transformações ou demoram mais tempo para se transformarem (o caso da linguagem, que seria o elemento mais estável de uma cultura); outros se transformam mais rapidamente (como as estruturas familiares ou de parentesco) e alguns são intermediários (como os elementos estéticos – arte, dança, culinária).
Segundo Thornton, a estabilidade da linguagem deve-se a sua função de transmitir pensamentos ou mensagens através de sons arbitrários. Assim, para que haja uma comunicação, é necessário certa rigidez na estrutura da língua, na medida em que se não houvesse restrições a mudanças, a linguagem deixaria de ser única e se fragmentaria impossibilitando a comunicação. Porém, no caso dos africanos, o contato com povos europeus dentro do continente africano, vai fazer com que a linguagem sofra variações, tento que se adaptar, para que houvesse entre eles, o mínimo de comunicação possível. Em um primeiro momento, essa ‘terceira língua’ formada (tanto entre os africanos de diferentes tribos, e estes com os europeus) é chamada de Pidgins – que trata-se de uma estrutura lingüística bastante simples pela não existência de verbos -, e em um segundo momento, essas línguas vão se adequando a um estrutura gramatical e passa a ser chamadas de Línguas Crioulas. Em outras palavras, embora a linguagem seja a mais estática dentre os elementos, a que sofre um processo mais lento, é também a mais frágil no processo de migração, ou seja, na transposição para o outro continente, portanto, quando as línguas não se assemelham, tanto em gramática, tanto em vocábulo, a consequência é a formação de uma terceira, as línguas Crioulas.
Vale destacar no texto, as formas de preservação das línguas africanas e ao mesmo tempo uma forma de resistência presentes nos cantos e nas canções, onde os escravos podiam cantar na sua língua africana materna, mesmo que não soubessem o significado da letra, o que não exigia aprendizado, assim seria a sua sobrevivência, onde até hoje é encontrada, tanto no Brasil, como no Caribe, por exemplo, por meio de músicas e temas religiosos.
O próximo tópico seria os laços de sangue, onde o autor fala que se prender apenas nisso é se limitar no tema, porque dentro da África existiam muitas formas de parentesco, que vai além da consangüinidade apenas. Ele cita as unidades corporativas, organizações de cunho político e religiosos. Assim, quando os negros chegam as Américas, essas organizações davam uma base as estruturas sociais, que mesmo de forma modificada, dava uma sustentabilidade fora do continente africano.
O terceiro ponto é a estética, que ao contrário da linguagem, não é um elemento tão estável, mas que, porém, foram os que mais resistiram na passagem pelo Atlântico (os exemplos maiores desses elementos são a música e a dança). O contato com outras culturas possibilitou misturas estéticas, onde estas não são tão rígidas como as línguas, podendo incorporar novas características, personalidades e elementos, havendo uma maior flexibilidade, ocorrendo um processo de troca entre os diferentes povos citados.
Em resumo do que se traz o texto, é de como houve a criação de uma nova cultura africana devido a flexibilidade e adaptação frente ao novo, e, embora a condição de escravos limitassem a expressão dessa cultura, houve uma certa resistência no sentido de criar uma nova identidade para os grupos de africanos e sobreviver a uma imposição da cultura europeia.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sem Título


Tatiana Milanello
Olinda Scalabrin
Samuel Santana


De acordo com o texto “Povos em Contato – comércio, poder e identidade” de Marina de Mello e Souza, correspondente ao capítulo III da obra Reis Negros no Brasil Escravista. História da Festa de Coroação de Rei Congo, podemos destacar alguns elementos fundamentais de análise. O primeiro deles, apresentado por uma ampla bibliografia, mas aprofundado neste, é o fato de que a escravidão africana já existia antes da chegada dos europeus à África. O texto descreve com bastante minúcia como o tráfico de escravos do Atlântico pode ser caracterizado, de modo geral, como o desenvolvimento de uma nova rota de tráfico, como complementação das que já existiam dentro do continente africano. A autora destaca que a economia européia e das Américas - que dependia do comércio de escravos – teria alcançado tamanha amplitude sem que houvesse o impulso que as nações africanas deram ao vender grande quantidade de escravos para as caravanas.
Mello e Souza demonstra que os portugueses faziam acordos comerciais com povos africanos que, em certa medida, ganhavam destaque e prestígio frente aos vizinhos ao aceitarem alianças com europeus, tanto por poderem adquirir objetos que representavam poder como armas, ferramentas e novos conhecimentos, como pela aliança em batalhas entre povos e segurança. Esses acordos eram vantajosos para as duas partes, uma vez que os europeus poderiam comprar muitos escravos e catequizar os nativos; como ressalta autora, “como em todos os lugares de colonização portuguesa, a Cruz e a Coroa estiveram sempre juntas, defendendo os interesses da fé e do reino.”
Essas trocas e acordos, contudo, nem sempre foram pacíficas e imediatas, segundo a autora, a oscilação entre indecisões, mudanças de aliados e conflitos, foram comuns até meados do século XVII. O caso da rainha Njinga, destacado pela autora, auxilia na compreensão deste processo. Njinga era descendente de dois povos de formação da população de um reino na atual Angola, uniu os ambundos e os jagas. A rainha, quando jovem, se converteu ao catolicismo, mas assim que assumiu o poder, sob circunstâncias controversas, passou a oferecer séria rejeição aos portugueses, voltando-se à religião de seus antepassados e à cultura destes, motivo pelo qual, além de ser a primeira mulher rainha, neste contexto, Njinga se destacou, ganhando poder frente a outros povos locais. Um detalhe importante é que mesmo não mantendo aliança com o governo português, o tráfico de escravos permaneceu entre a rainha e o comércio existente com traficantes privados. Essa é outra característica comum e repetida entre os africanos neste período, como afirma Mello e Souza.
Devido à invasão dos holandeses ao nordeste do Brasil, estes também invadiram a costa de Angola, com a finalidade de obter acesso ao tráfico de escravos. Portugal nesta época, 1640, volta-se para a reconquista do território. Derrota a rainha Njinga, que após esta perda, passou a adotar o catolicismo novamente, chegando mesmo a pedir que missionários fossem a seu reino para a catequese. Contudo, Njinga entrou para a memória do povo daquela região como o símbolo da resistência ao poderio e influência estrangeira.
            A segunda parte do texto trata de forma mais direta os elementos fundamentais do escravismo africano. A autora destaca que entre os africanos a escravidão era algo cultural, presente entre as diversas tribos. As relações de poder não se davam pela posse de terras, mas pelas linhagens familiares que compunham o grupo. Assim, uma pessoa que se tornava escrava, mesmo que fosse da tribo, deixava de ser parte desta, mas era agregada à linhagem, aumentando o prestígio de seu senhor, que era proporcional ao número de escravos que possuía – característica semelhante, inclusive, com a escravidão brasileira – assim como o papel de propriedade para os europeus.
            As formas de se tornar escravo eram diversas. A guerra entre tribos era a principal, mas também poderia acontecer por dívidas, por venda de si ou dos filhos, ou mesmo pelo sequestro. Por mais que fossem diferentes as formas de se tornar escravo, uma vez feito, o indivíduo não mais pertenceria a sua comunidade tribal, a não ser como linhagem.
            A autora defende que o tráfico atlântico não foi o motor do interno continental, mas apenas uma nova rota. A demanda de escravos era distinta das outras rotas, sendo que mesmo com a intensificação da busca por cativos, as vendas eram feitas de diversas formas, atravessando diferentes compradores antes de chegar ao porto. O testemunho de um escravo alforriado nos Estados Unidos descreve e resume bem o processo. Feito cativo quando criança junto de sua irmã, preso por dois homens e uma mulher, enquanto os pais trabalhavam na lavoura, acabou passando por diferentes donos, a ponto de aprender três línguas distintas.
            Por fim, o texto trabalhado fornece um panorama geral do tráfico de escravos na África centro-ocidental, buscando definir as bases e principais características deste, de modo a salientar a relação empreendida entre os povos africanos e europeus – especialmente os portugueses.

A África Escravocrata


Carlos Henrique Genova
Carlos Manoel Vaz Jr.
Felipe Faulin Valentin
Lucas Ribeiro
Marcos Felipe Godoy


O texto trabalha com a ideia de que a entrada dos portugueses na região do Congo, mais especificamente em Ngola, dependeu de jogos políticos entre os chefes da região, em detrimento da violência com a qual imagina-se que os europeus adentraram o território africano. Desta maneira, tendo como exemplo o caso princesa Njinga, que, inclusive, chegou a formar alianças tanto com os lusitanos quanto com os holandeses, os ibéricos também trabalhavam no sentido de catequizar a população nativa, empreendendo, portanto, a política da “cruz e da coroa”, ou seja, a colonização auxiliada com a religião.
Outra questão que Mello e Souza aborda é a da já tácita ignorância com relação à existência de escravidão no continente negro. Na África, ao contrário do que se acredita, também havia sociedades escravocratas. A não-existência da noção de propriedade privada entre os africanos contribuía para que determinado clã fosse respeitado a partir da quantidade de escravos que ele possuía. O sistema de linhagens, que podia incorporar um desses trabalhadores à família que dele era proprietária, ajudou na complexidade do sistema, com a escravidão sendo importante elemento para determinado clã, que adquiria força dependendo do número de escravos que somava.
Novamente, assim como a noção que temos de que a violência foi a marca mais impressa pelos portugueses para a entrada na África, noção esta que ignora os acordos políticos, a empreitada escravista assistia à presença européia quase que toda restrita ao litoral, local de onde, depois de receberem homens capturados quase que exclusivamente pelos próprios africanos no interior, mercado este auxiliado pelo surgimento de sociedades especializadas na captura, partiam os cativos, mais notadamente ao Brasil, onde a agricultura começava a se expandir e era em boa parte dependente da mão-de-obra negra para se desenvolver cada vez mais.
Concluindo, a contribuição do texto passado é a de desmistificar algumas afirmações que partem do senso-comum. Assim, as noções de violência levada pelos europeus à Africa, o que dá a entender que o continente antes vivia sem guerras, e de escravidão pré-existente, desconhecida por boa parte dos brasileiros, já eram questões corriqueiras no continente negro. Afinal, segundo a autora, as estruturas políticas já existentes somente se adaptaram às novas, dos europeus.

domingo, 16 de setembro de 2012

A escravidão no advento da modernidade


Aline Ribeiro de Barros
Carla Alexandra Passalha
Cristiane Maria de Lima Curtolo
Rosangela Silva Rezende

Conforme aborda o historiador britânico Robin Blackburn, na sua obra “A construção do escravismo moderno no Novo Mundo”, o sistema escravista que se desenvolveu nas colônias da América se configurou de maneira inovadora, quando comparado às formas de escravidão anteriores, mesmo apresentando alguns aspectos de uma configuração tradicional. Nesse sentido, o autor busca analisar em sua obra a constituição dos sistemas europeus de escravidão implantados nas colônias americanas, assim como também objetiva melhor compreender a relação existente entre a escravidão e o advento da modernidade. 
Segundo Blackburn, a escravidão moderna foi majoritariamente fomentada e regulamentada pelos comerciantes de escravos e pelos colonos que faziam uso desse tipo de mão de obra, se opondo à ideia equivocada de atribuir ao estado as responsabilidades sobre tal comércio, ou seja, a sociedade civil colonial que estabelecerá as regras e costumes no que tange a escravidão e ao estado será atribuído o dever de dar legitimidade a tais regras e costumes, no sentido de respaldar legalmente o que já se foi convencionados pela sociedade civil.
Na busca de compreender a configuração do que intitula de escravismo moderno, Blackburn destaca o fato de o sistema escravista europeu aplicado às Américas ter adquirido um caráter intensamente comercial, o que fez com que o comércio atlântico se transformasse na mola propulsora das trocas globais entre os séculos XVI e XIX. Conforme enfatiza o autor, esse caráter extremamente comercial que a escravidão no Novo Mundo passa a ter é um aspecto que a diferencia da antiga: “Pode-se dizer que muitos escravos romanos foram vendidos por terem sido capturados, enquanto muitos escravos africanos que alimentaram o tráfico atlântico foram capturados para serem vendidos.” (BLACKBURN, 2003, p. 23).  Haja visto, o desenvolvimento notável do sistema de plantations no Novo Mundo, que de início baseou-se na mão de obra indígena, sendo esta rapidamente substituída por milhares de africanos que passaram a sustentar o sistema colonial desempenhando tanto funções braçais árduas quanto de supervisão.
Nesses aspectos, o autor considera que a escravidão nas Américas se deu de maneira bem menos diversificada se comparada a escravidão no Velho Mundo, em se tratando do tipo de atividade exercida e da sua composição étnica. No entanto, como o mesmo menciona a escravidão americana não só apresenta características inéditas, assim como é associada a vários processos que integram a modernidade, tais como:

(...) o crescimento da racionalidade instrumental, a formação do sentimento nacional e do estado-nação, as percepções da identidade baseada na raça, a disseminação das relações de mercado e do trabalho assalariado, o desenvolvimento das burocracias administrativas e do sistema moderno de impostos, a crescente sofisticação do comércio e das comunicações, o nascimento das sociedades de consumidores, a publicação de jornais e o início da publicidade impressa, a “ação à distância” e a sensibilidade individualista. (BLACKBURN, 2003, p. 16).  

Para Blackburn, o elo entre a modernidade e a escravidão enfatiza o lado obscuro do progresso, já que a escravidão moderna se configurou como destrutiva e desumana, pois “a dinâmica espantosa da sociedade civil também é impregnada de desastres e violência injustificada.” (BLACKBURN, 2003, p. 19).  
No que tange a América espanhola, segundo o autor, o estado colonial teria um papel mais amplo e controlador, o que veio a restringir o desenvolvimento da escravidão nas plantations, ao passo que no Brasil português, o estado se mostrava menos regulador, permitindo um desenvolvimento maior desse comércio. Este que seria ambicionado por outras nações europeias, tais como França, Holanda e Inglaterra.
Nesses moldes, a escravidão passa a constituir um rentável negócio, no entanto, mais que um negócio, se configurava como uma instituição, um sistema destrutivo e opressor, “mas que veio a exibir a rotina comum de uma empresa” (BLACKBURN, 2003, p. 23), que se embasou na coerção e na manutenção da ordem lançado mão de maus tratos frequentes que além de punições, tinham também um caráter disciplinar e pedagógico.   
O viés racial da escravidão do Novo Mundo ganha espaço na medida em que comerciantes e colonos passam a utilizar teorias raciais como explicação para a escravidão. Os cativos não eram considerados membros do Estado, por isso adquiriam a nacionalidade de seus proprietários. Dessa forma, para os europeus do início da era moderna, aqueles eram considerados selvagens que precisavam ser domesticados e ter sua identidade naturalizada, o que demonstra o intuito, ao menos em tese, civilizatório nessas ações.
Com base nesses pontos a serem trabalhados pelo autor, Blackburn afirma: “A conjunção de modernidade e escravidão é estranha e desafiadora, já que o elemento mais atraente da modernidade sempre foi a promessa de maior liberdade pessoal e auto-realização”. (BLACKBURN, 2003, p. 32).  Assim, segundo análises do autor, ao mesmo tempo em que a escravidão esta intimamente ligada a elementos da modernidade, essa forma de exploração de mão-de-obra, ocorrida e aprimorada no Novo Mundo, acaba por ocorrer concomitantemente às promessas de liberdade e igualdade em franca ascensão no período. Desta forma, a escravidão se torna integrante da modernidade, na medida em que será a força motriz da economia, que por sua vez, trouxe o desenvolvimento e o ‘progresso’ para o Ocidente europeu.
Desta maneira, pode-se concluir que a introdução do livro “A construção do escravismo no Novo Mundo: 1492-1848” suscita a questão de que a história da modernidade é construída com base em relações sociais desiguais, assim como enfatiza Orlando Petterson na sua obra “Escravismo e Morte Social: um estudo comparativo”:

A escravidão é uma das formas de relação de dominação mais extremas, tocando os limites de poder total, do ponto de vista do senhor, e de impotência total, do ponto de vista do escravo. No entanto, difere de outras formas extremas de dominação em aspectos muito específicos. (PATTERSON, 2008, p. 19).  

Nesse contexto em que a escravidão se adentra a modernidade novas formas de representação e expressão surgem no sentido de se apreender tal realidade. Nesse sentido, um novo estilo artístico, o barroco, buscará criar e propagar “uma visão controlada e santificada da sociedade civil” (BLACKBURN, 2003, p. 36). No entanto, o barroco surge como uma expressão oriunda da alta sociedade civil, sendo assim, tal estilo artístico acaba por ser aceito como uma cultura oficial, ao passo que, o crioullo, um outro tipo de representação da sociedade escravista, vem contrapor essa dita ‘cultura oficial’, e por ser expressão de classes populares, acaba por criar o que a grosso modo, pode ser chamado de cultura popular.
Segundo Blackburn, o barroco procurou dar uma visão harmônica da sociedade escravista, no entanto, aos poucos, elementos crioullos vão sendo a ele incorporados de tal maneira que no ponto de vista do autor, a versão colonial do barroco antecipará elementos do crioullo, que por sua vez, se afastará dos modelos europeus, adquirindo em geral um caráter sincrético e popular.
Mediante tais discussões, ao fim de seu capítulo introdutório, o autor enfatiza o fato de milhares de escravos africanos terem sustentado o desenvolvimento europeu, não só com o seu árduo suor, mas também com seu próprio sangue: “Mas era este o preço inevitável e ‘necessário’ do avanço econômico?” (BLACKBURN, 2003, p. 39).  Nessa perspectiva, o autor afirma que, se foi mesmo um preço necessário a ser pago, ao menos deveria parecer justo, no entanto, os danos humanos causados pela escravidão são, até hoje, sentidos pela sociedade.

Texto: BLACKBURN, Robin. Introdução: Escravismo e modernidade. In.: A construção do escravismo no Novo Mundo. Trad. Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 13-44.