Jennifer Mariano
Lucimar Ranuzzi
Nathan Lima
Priscila Marques
Rafael H. Silva
O autor discute batuques de negros, baseando-se
em relatos, jornais, do final do século XVII e meados do século XIX, onde busca
perceber transformações e continuidades quanto ao perfil dos participantes e
atitudes de senhores e autoridades políticas e policiais diante da festa negra
na Bahia. A grande questão era: a quem serve a festa?
As festas seriam sempre uma forma de discussão
sobre qual seria a sua representação e o seu papel na sociedade. Para muitos,
essas festas eram um meio de expressão da resistência escrava e negra no Brasil
e outros entendiam que essas festas eram a preparação para as revoltas, mas
havia pessoas que entendia como meio de controle social dos escravos, mas
também eram vistas como uma maneira de demonstração da forma de liberdade dos
africanos.
REIS aborda três exemplos distintos para
ilustrar o quadro. O primeiro é uma festa ocorrida no ano de 1808 em Santo
Amaro, nas oitavas de Natal, onde é observado a perspectiva da divisão étnica,
onde os negros se reuniam conforme a sua origem, embora essa divisão não fosse
completa. Neste ponto, é destacado pelo autor que, toda a comida e bebida e até
as vestimentas eram pagas pelos próprios negros, mostrando que era possível a
composição de pequenas plantações de subsistência e outros trabalhos que
permitiam a remuneração. Outra abordagem é que os próprios senhores liberavam
os escravos para participarem dos batuques, sendo que alguns desses senhores
até assistiam àquelas comemorações. É destacado também a preocupação de alguns
senhores e autoridades em relação à festa acontecer até a noite, porque para
eles, os negros, dessa maneira, ficariam cansados para o trabalho do outro dia,
e além disso, à noite eram o momento onde os demônios estavam a passear e onde
os negros revoltosos circulavam com maior liberdade, gerando sempre o medo.
Outro momento analisado por REIS, é após a
independência, onde os governos locais empregam grandes esforços para controlar
melhor a população escrava, e tomam medidas que refletiam temores com a
rebeldia escrava e com a disseminação dos costumes africanos, até porque nesse
momento, os negros representavam a maior parte da composição demográfica de
Salvador.
Já em meados do século XIX, muda-se a percepção
em relação às festas e aumenta o temos em torno dessas reuniões, principalmente
após a revolução dos malês. O batuque chega a ser confundido como um atentado a
escravidão, mas ainda existiam senhores que permitiam as festas. A imprensa
local criticava fortemente essas batucadas reforçando o medo com a festa negra.
Para muitos a festa africana representava uma ameaça ao projeto de uma Bahia
civilizada. Mas só a partir de 1850, após o final do tráfico transatlântico que
aumento a esperança de diminuir a chegada de negros na Bahia e assim acabar com
os batuques. A partir dessa década, os batuques ocorreriam somente nas festas
religiosas e a festa do Bonfim era a preferida da população e em especial pelos
negros. Mas em 1855, os negros foram proibidos de participarem dessas festas e
essa discussão a respeito da participação dos negros tomou maiores proporções
chegando a ser discutida na Assembléia Provincial. Com isso, pode-se dividir as
festas dos batuques em duas perspectivas, aqueles que viam nela uma forma de
ensaio para as revoltas, a repulsa moral e religiosa, que depois se
transformaria em medo após as revoltas dos malês e a concentração de um maior
número de escravos de mesma origem, especialmente os nagôs, e passa a ser
novamente a preocupação com a resistência cotidiana, em especial a fuga
temporária e a vagabundagem, que poderia ser favorecida pelas festas, com esse
processo sendo encabeçado por autoridades conservadoras e o Correio Mercantil.
O principal discurso gerado entre essas
disputas, foi o medo. Porém as raízes africanas permaneceram até os dias de
hoje.
REIS, João José. Batuque Negro: repressão e permissão na Bahia
oitocentista. In: JANCSÓ, István & KANTOR, Iris. Festa: cultura e sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo:
Edusp, 2001, p. 339-358.